domingo, dezembro 18, 2005

Não há primavera se não imaginar erva fresca das palavras erva fresca ditas por ti; não haverá verão se não imaginar o sol da palavra sol dita por ti; não haverá outono se não imaginar o fundo do esquecimento da palavra morte dita nos teus lábios.

Passei a noite sozinho. Sentado ao lume que não arde, como se me visitasses.
Como se, com a tenaz, dispusesses uma fila de castanhas ao calor das brasas e depois as tirasses uma a uma a mas desses descascadas quentes, sem eu precisar de tas pedir. Como se ardesse, à lareira, sentado, como estiveste, de pijama, a segurar a tua neta e a brincarem os dois. Pai que te esforçavas a sair da cama, que aguentavas as dores para estares minutos connosco, e nesse inicio de noite pegaste na tua neta. E estávamos falávamos quase esquecidos da tua doença quando, com a pouca agilidade, te levantaste e, entregando a menina à minha irmã, disseste a velhaca fez-me chi-chi no colo. Pai, inocente. E esticares a menina à minha irmã e nós a vermos o sangue alastrar-te nas calças e no casaco do pijama.

Onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.